Voltar aos 10 km não é voltar ao mesmo corpo: Track and Field Run Series 2026, etapa Praia de Belas

Medalha e número de peito - Track and Field Run Series

O despertador tocou mas eu já estava acordada. Chegou o domingo da prova de 10 km que eu estava sonhando em voltar a correr: a Track and Field Run Series.

Abri as cortinas do quarto, abri a janela e respirei o ar de Porto Alegre olhando para o Guaíba. Estava amanhecendo com o céu parcialmente nublado, o que era promessa de um abençoado alívio no calor.

Depois de uma chuveirada gelada rápida (prática de todas as manhãs, independente da temperatura e época do ano), coloquei minhas roupas, fiz uma sessão de mobilidade e alongamento para aquecer. 

Água com sal para hidratar. Tênis nos pés. Hora de ir com o marido para a largada.

Como será que o corpo responderia dessa vez?

Concentração antes da largada

Essa prova foi a Track and Field Run Series Praia de Belas. Eu adoro correr esse circuito. Os kits são bem bonitos e a concentração é sempre cheia de coisas para degustar e aproveitar.

Desde que eu mudei minha dieta eu faço jejuns longos, treino em jejum e me sinto ótima. Sendo assim, tomei meu café sem açúcar em uma das tendas de patrocinador, bebi minha água e me senti feliz por estar ali.

Tiramos foto no painel dos 10km que é muito legal pois é formado pelos nomes dos inscritos em cada categoria.

Esperamos o aquecimento coletivo terminar e fomos nos posicionar para o início da corrida.

Uma coisa que percebi em mim foi que estava calma. Uma vez eu ficava extremamente nervosa antes da corrida começar, isso que nunca nem me imaginei na elite que compete por prêmios.

Eu estava ali pelo prazer de correr. E como é boa e diferente a sensação de estar ali assim.

Começou a prova!

Largamos! Como sempre, eu inicio a prova mais lenta e os 3 primeiros quilômetros confesso que não gosto, seja treino ou corrida. Toda vez parece que não vou conseguir, dá vontade de parar… é uma barreira física e psicológica que eu tenho que enfrentar sempre.

Para meu desespero, as nuvens que estavam prometendo alívio começaram a se dissipar e o sol foi dando o ar da graça com cada vez mais força. Em virtude do susto que tomei na prova de Três Coroas , me precavi e peguei água desde o primeiro posto de hidratação. Melhor correr com latinha na mão do que ficar com sede.

Ah, que emoção quando passei pelo local onde a galera dos 5km davam a volta e a placa dos 10km sinalizava para seguir em frente. Não acredito que eu estava de novo entre os que vão para a distância maior! Eu me sentia muito animada.

Voltar não quer dizer performar igual

Acervo Pessoal

Sim, eu treinei três meses para essa prova. Saí do zero absoluto e treinei até conseguir a marca de 10 km nas minhas corridas.Mas eu estava idealizando uma época que não volta. Na minha cabeça, eu estava com os tempos que eu fazia anos atrás.

Primeira coisa: passei o tempo todo monitorando meu quadril, controlando postura e isso, para todos nós –  cheios de vícios posturais – é cansativo.

Segundo: o calor. Eu não sei o porquê disso, mas o calor tem sido meu inimigo. Meu corpo não tem reagido muito bem às temperaturas mais elevadas e, ao final da corrida, houve uma reação a ele. Eu bebi água em todos os postos de hidratação, peguei gelo, fiz de tudo para me refrescar. Mesmo assim, houve prejuízo.

Um pouco depois do quilômetro 6 eu comecei a cansar. Não pensei que seria tão cedo assim, mas comecei realmente a cansar.

No quilômetro 8 eu já estava com um ritmo bem mais lento que o meu normal. Fazia contas mentais o tempo todo sobre quanto faltava. Várias pessoas que caminharam passaram por mim. Cogitei parar mas, pensando melhor, se eu caminhasse talvez não conseguisse voltar… mas e se tivesse sido a melhor estratégia? Preciso pensar a respeito.

Teve torcida me incentivando, e eu adorei

Olha, não vou mentir, eu fui das últimas a chegar na prova. Meu tempo foi pavoroso: fiz o percurso em 1 hora e 17 minutos. Eu, que já corri em 54 minutos essa mesma distância, que fiz 1h30 16km, me vi entre as últimas a chegar.

Atrás de mim havia poucas pessoas, talvez umas dez.

Só que teve gente incentivando “vai lá, guria, falta pouco!”, “bora! Bora! Tá quase lá!”. Tem um monte de fotos minhas para comprar porque eu estava sozinha na chegada. Eu adorei o espírito de incentivo do pessoal que chegou antes de mim. Eu adorei essa torcida inusitada! Uma vez ficaria decepcionada e envergonhada.

Dessa vez me senti incrível!

O corpo deu um sinalzinho de atenção

Consegui, não fui a última, enfrentei meus demônios do quadril machucado, do pouco treino e do calor. Mas o corpo deu um sinalzinho: novamente fiquei tonta ao final da corrida. Não com a mesma intensidade da outra vez, mas ele avisou: “querida, trata de melhorar esses treinos e não me força”.

O que eu fiz desde então? Desisti? Nem pensar: coloquei um dia na semana – o domingo – como o dia em que treino no calor, lá pelas 10 ou 11 da manhã. Comecei correndo 5 km nessas condições, aos poucos vou aumentar.

Além disso, agora comecei a treinar não apenas em pista plana. Fui para uma pista com subidas e descidas, mas irei para a cidade para me desafiar e deixar o corpo mais bem preparado.

Vou deixar de lado as distâncias maiores que 5 km?

Sequer cogitei essa hipótese. Correr está fazendo com que eu me sinta livre e viva, uma sensação incrível de poder. Eu me apaixonei de novo pela corrida.

Tudo é treino, tudo é constância. Principalmente: paciência e acolhimento pela minha nova realidade. Voltar a correr com quase 50 anos não pode nem será igual a correr com 29, 30.

Voltei aos 10 km e o corpo deixou claro que voltar não significa recomeçar do mesmo lugar. A corrida é a mesma, mas quem chega até ela agora é um corpo diferente, mais atento, mais paciente e, talvez, mais forte do que antes.

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