Preparar o corpo para um novo horário de corrida
Voltar a correr perto dos 50 anos tem me ensinado muitas lições importantes: não subestimar o clima e o horário é uma delas.
Quando eu comecei a correr era mais fácil a adaptação a horários e climas. Além de não ter a lesão no quadril, o corpo se ajustava rapidamente aos estímulos dos treinos e mudanças de temperatura não influenciavam praticamente em nada o desempenho. Já participei de provas de 16 km sem ter que treinar tanto assim, no inverno e no verão.
Entretanto, a coisa agora já não é desse jeito. Correr aos 49 anos carrega consigo o peso de lidar com mudanças hormonais, com recuperação de lesão, com necessidades nutricionais e fisiológicas diferentes.
A gente pode não se considerar velha aos 49, 50, 60. Certo, mas é diferente dos 20 ou 30, até dos primeiros anos dos 40. Correr agora não é só correr. Preciso de um sistema de sustentação para continuar a corrida. Diariamente eu treino força muscular, faço reeducação postural, mobilidade, às vezes aulas de yoga entram para acalmar a mente também.
Tudo isso para que eu me mantenha nas pistas sem correr o risco de me machucar ou passar mal. Precisei desenvolver a autorresponsabilidade. Por isso, para minha reestreia na distância de 10km, troquei meu horário de treino e foi a melhor coisa que poderia ter feito.
Escolher os 10 km (e aceitar o horário da prova)
Março é um mês ingrato para correr no Sul. Não é mais verão pleno, mas também não é outono. Tem calor, umidade e imprevisibilidade. E justamente em março eu voltarei a correr 10km.
Há muitos anos não corro essa distância. Confesso que achava que não voltaria, já ficava internamente dizendo que é exagero correr isso tudo. Não é, é delicioso. Eu gosto de distâncias maiores porque não sou corredora veloz, sou de resistência.
Assim, quando marido propôs participarmos desse circuito de corridas que gostávamos de correr e perguntou “5 ou 10km?”, sem pensar muito já falei: “quero correr os 10 km”.
Eu gosto de correr no início da noite, meu horário favorito. Só que a prova será pela manhã.
Precisei me conscientizar que, depois do susto que tomei na prova em Três Coroas, eu preciso sempre levar em consideração o clima e horário daqui pra frente.
Empurrei meu conforto para longe e troquei a noite pelo dia. 10 km é uma distância média, mas que pede disciplina, paciência e constância.
Como tem sido a nova rotina de treinos?

Estabeleci uma rotina de treinos matinais que visam aumentar gradativamente as distâncias que eu corro (me propus a subir 1 km a cada dois treinos), além de levantar cedo e sair para correr.
Essa, sim, é uma grande mudança! Nunca pensei que eu conseguiria obedecer uma rotina de levantar às 5 horas da manhã para correr. Mas não é uma disciplina cega, é estratégia mesmo.
O que me veio à mente foi que não queria um choque no dia da prova. Imagina estar acostumada a treinar somente pela noite e precisar acordar bem cedo em determinado dia e percorrer 10km sob o sol? Para mim não iria cair muito bem. Se eu tenho a possibilidade de fazer os treinos pela manhã, então faça!
Aqui vale comentar que notei duas melhorias com a troca de horário de treino: estou com mais energia para trabalhar durante o dia e tenho dormido melhor à noite. Nos dias em que estava treinando após o pôr do sol, eu demorava para baixar a adrenalina da corrida e a noite não era tão relaxante assim.
Quero deixar claro que isso não é um modelo a ser seguido, é o que funcionou para mim agora. Talvez a minha estratégia não seja ideal para o seu momento. Ou ainda, talvez você não possa trocar horários. O mais importante é se escutar e entender as necessidades do seu corpo dentro da sua realidade.
Os 10km ainda não aconteceram. Não sei como será o dia da prova. Tenho na memória o tempo em que fechava essa distância em 55 minutos, mas não vou criar expectativas de performance. Não quero provar nada para ninguém, só quero voltar a me divertir correndo por mais tempo e mais longe.
Só posso controlar a minha dedicação e cuidados com a saúde para que seja realmente um bom momento, independente do tempo que levarei para cruzar a linha de chegada.
Trocar a noite pelo dia não foi uma renúncia, foi uma escolha consciente. Talvez temporária, talvez não. Por enquanto, é o que faz sentido. E, para mim, correr sempre foi isso: ajustar o corpo ao tempo em que se vive.
Meu nome é Olenka Müller e escrevo no Céus Antigos sobre quando a corrida deixa de ser meta e passa a ser reencontro.



