Essa corrida noturna parecia ser mais uma das que eu completaria tranquilamente: percurso, largada após escurecer, tempo suficiente para descansar pela tarde. Além disso, me inscrevi para correr apenas os 5km.
Ledo engano. Essa prova me ensinou que podemos ser negativamente surpreendidos por quem menos esperamos: nosso próprio corpo.
Três Coroas é uma cidade muito próxima à subida da Serra Gaúcha, conhecida pelo Templo Budista que atrai muitos turistas durante o ano. Não sei direito se é por estar cercada de morros, essa simpática cidadezinha é um verdadeiro forno. Impossível ficar no quarto de hotel sem o ar condicionado estar ligado.
Treinei algumas noites para a prova, sem me preocupar muito com pace. Sempre tenho em mente que estou retomando as corridas, que lesionei o quadril há cerca de três anos por não respeitar limites e que não estou propriamente competindo com ninguém além de mim mesma.
Então chegou o final de semana da prova e nos dirigimos à Três Coroas. Já na estrada deu para sentir o peso do calorão de dezembro. Mas havia sempre o pensamento “tudo bem, vai ser de noite e não vai estar tão quente”.
Kit simples demais para uma prova exigente
A retirada do kit da prova foi na praça central da cidade. Em comparação com o kit da Noite Run , ele foi tímido: número de peito e camiseta numa sacola de papel. Tchau, boa corrida.
Não havia fila, foi rápido. A praça estava toda decorada para o Natal, então valeu dar uma caminhada e visitar os arredores. Mas o calor desestimulou os passeios e voltamos para o conforto do ar condicionado no hotel.
Hora de correr: como foi a experiência da prova
Como tudo é muito perto, saímos do hotel e chegamos com folga na concentração. Havia bastante gente para assistir e, por ser a primeira edição de uma prova do interior, havia bastante inscritos.
Uma coisa que achei sensacional foi a presença de corredores com 60, 70, 80 anos.
Muitos grupos de corrida estavam presentes nesta prova, grupos da cidade e região, pelo que pude identificar. E, nesses grupos, vários corredores da terceira idade fazendo bonito e mostrando que o esporte faz a vida muito mais leve e divertida, agrega propósito e objetivos. Eram pessoas realmente apaixonadas por correr, por viver: estavam alegres, satisfeitas com resultados e por estarem no meio de toda aquela agitação saudável.

Aqui houve um ponto contra que não foi nem por causa da prova em si, mas por causa de um evento religioso com pregação em cima do palco feito na mesma praça e no mesmo horário da corrida. Ambos lados barulhentos, deixou o clima meio atordoante. Creio que poderia ser negociado entre as partes se houver outra edição da corrida.
A largada foi pontualmente às 20 horas. As pessoas estavam animadas, eu também, com meu fonezinho e minha playlist favorita. Fui ultrapassando quem estava mais lento, correndo num ritmo bacana (eu demoro um pouco para “aquecer” a máquina e poder acelerar). Porém, devo ter corrido cerca de 1,5 km quando comecei a sentir o peso da umidade e do calor. Notei que não estava conseguindo respirar tranquila como normalmente respiro e tive um desconforto no estômago, parecia que estava um pouco tonta.
No primeiro posto de hidratação (pausa para elogiar a quantidade de postos bem servidos de hidratação), peguei pedras de gelo, coloquei algumas na boca e outras fui passando no pescoço.
Ouso dizer que fazer isso foi o que me impediu de passar mal pelo trajeto. Apesar de não parar de correr, tive de diminuir consideravelmente o ritmo. Vários dos que eu havia ultrapassado passaram por mim, incluindo os 60+ de quem falei.
Continuei pegando água para apenas jogar na cabeça e pescoço. Minha sensação era de que eu não conseguiria completar a prova. O corpo, agora eu entendi, superaqueceu e se sobrecarregou. Um verdadeiro perigo. Só consegui acabar com o incentivo das borrifadas de água e do ritmo das músicas. Foi então que houve outro problema que me deu muito ranço.
O fiscal de prova mal educado
Já na reta final da corrida, acredito que faltando uns 800 metros, eu estava correndo mais no canto, espaço de sobra para qualquer um me ultrapassar.
Eu focada em não desmaiar (sem exagero) e acabar a prova, um dos fiscais de pista simplesmente começa a gritar comigo “sai da frente, po**a! sai da frente, po**a!”. Nisso, passam dois corredores da prova de 10 km do meu lado com a moto guiando. Havia espaço, eu estava no meu canto, eles passaram longe de mim. Uma banda marcial passaria correndo do lado com folga.
Eu sei que, se eu estivesse bem, certamente teria devolvido um desaforo na hora. Não tinha energia sobrando para isso.
Dispensável e, para mim, fica o registro como um dos motivos pelos quais não correrei novamente essa prova.
Cheguei correndo, mas demorei bastante para esfriar o corpo. Precisei ficar caminhando e depois deitar na grama para acabar com a sensação de tontura. Bebi água aos poucos, quando o estômago começou a aceitar.
Valeu a pena correr essa prova?
Valeu conhecer a cidade. Valeu ainda mais porque meu marido garantiu lugar no pódio por categoria.
Isso também foi muito legal: havia premiações por categorias, o que compensou o kit modesto que recebemos.
Essa prova, ao contrário da Noite Run, foi uma prova forte. Muitos grupos de corrida participaram, pessoas que estavam competindo para valer. Não foi uma prova festiva, foi uma prova de ritmo e performance. Não creio que seja aquele tipo de prova que a pessoa iniciante se sinta incluída. Trata-se de uma prova para forçar mesmo. Portanto, se quiser participar, se prepare corretamente, principalmente visando o tipo de clima de Três Coroas.
O saldo da experiência foi positivo, mas não voltarei a participar dessa corrida.
Qual hotel ficar?
A gente ama um hotel e não estou falando de luxos, mas de cama e banho bons, café bem servido, ambiente limpo e bom atendimento. Encontramos tudo isso no Hotel Caminhos da Serra.

Ficamos num quarto confortável de frente para a rua. O percurso da corrida passava em frente a ele, por sinal.
O hotel recebe bastante excursões, então o salão de café da manhã pode estar cheio cedo.
Não há opções sem glúten e vegana para os adeptos. Mas a comida é bem gostosa, tem bolos e pães, frios, salgados, enfim, tudo o que se espera de um bom café de hotel.
O valor da diária é justo. Fica a dica de colocar o carro na parte de trás do hotel, numa área coberta: pela manhã o estacionamento da frente recebe todo o sol.
Me chamo Olenka Müller e escrevo no Céus Antigos sobre o que acontece quando o corpo encontra a corrida, o tempo e a noite, mesmo quando o calor pesa, o ritmo cai e o corpo lembra que ainda está reaprendendo a correr.
Conheça aqui o Hotel Caminhos da Serra em Três Coroas, RS

